O estado de guerra no Oriente Médio provocado pela tensão, principalmente, entre Estados Unidos, Israel e Irã provoca consequências no mundo inteiro. Um deles é o impacto no fornecimento do petróleo que é uma commodity global altamente sensível à percepção de risco.
“Sempre que tensões geopolíticas se intensificam, especialmente envolvendo países estratégicos como o Irã, o mercado reage antecipadamente, incorporando o risco de interrupção no fornecimento”, afirma Roberto Kanter, professor de MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Significa que o preço do barril do petróleo sobe antes mesmo de qualquer ruptura efetiva, pois o mercado não espera o problema acontecer, mas antecipa-se a ele. A partir daí, explica Kanter, ocorre um repasse natural para os derivados – gasolina, diesel e querosene.
Com a alta do petróleo, as contas de energia também disparam. Marcos Piellusch, professor da FIA Business School, aponta que a relação ocorre por dois canais principais. “Primeiro, o aumento do petróleo pressiona o preço de outras fontes de energia, como gás natural, que é amplamente utilizado na geração elétrica”, diz.
O segundo motivo é o fato de, em momentos de escassez ou de custos elevados, os sistemas elétricos poderem recorrer a fontes mais caras, como as termelétricas que, frequentemente, usam combustíveis fósseis. “O resultado é um aumento do custo marginal da energia [custo de produzir energia adicional], que acaba sendo repassado para consumidores e empresas”, explica Piellusch.
Não há como escapar: embora com intensidades distintas, todos os setores são atingidos pela alta dos combustíveis e da energia. Na logística, naturalmente, o efeito é imediato, já que o diesel representa uma parcela importante do custo operacional e qualquer variação impacta rapidamente na margem. Além do mais, o transporte no Brasil é majoritariamente terrestre.
Na indústria, os especialistas apontam que o impacto combinado é o que pesa – energia e insumos mais caros, especialmente em setores que utilizam derivados do petróleo como plásticos, embalagens e produtos químicos, além do aumento dos fretes.
Segundo Marcos Piellusch, o varejo sofre de maneira indireta, com margens pressionadas e necessidade de repassar preços, o que pode afetar a demanda. Já o setor alimentício é um dos mais sensíveis por combinar todos esses fatores – transporte, energia e insumos – e trabalhar com margens mais apertadas.
É importante destacar que na outra ponta da problemática estão os consumidores. Eles sofrem com aumento de preços e redução do poder de compra. “Isso gera mudanças no comportamento de consumo, priorização de gastos, substituição de produtos e redução de volume. Esse movimento retroalimenta o sistema, pois a demanda se ajusta, criando um ambiente mais desafiador para as organizações”, afirma Roberto Kanter.
Ajustes estratégicos
Diante de cenários desafiadores como o provocado pelos conflitos mais recentes, reduzir custos operacionais é uma medida necessária para minimizar os impactos. Isso exige um conjunto de ações coordenadas.
Eficiência operacional e processos: Identificar retrabalho, desperdícios e gargalos pode gerar economia relevante sem necessidade de grandes investimentos. “Pequenos ganhos de produtividade fazem diferença em cenários de margem pressionada”, diz Piellusch, da FIA.
Automação e digitalização: Tarefas repetitivas para rotinas administrativas, atendimento inicial e análise de dados podem ser automatizadas, liberando tempo e reduzindo custo operacional.
Logística mais inteligente: Otimizar rotas com ferramentas de roteirização, consolidar cargas; diminuir viagens ociosas e investir em parcerias regionais podem reduzir significativamente o custo por entrega.
Eficiência energética: Substituir equipamentos por modelos que economizam energia, usar iluminação mais eficiente; monitorar o consumo por área e ajustar horários das operações favorecem ganhos consistentes.
Negociação com fornecedores: Renegociar contratos torna-se estratégico. Além disso, buscar fornecedores mais próximos e avaliar compras em escala contribuem para reduzir custos logísticos e operacionais.
Gestão de estoque: “Evitar o excesso de estoque, que imobiliza capital e, ao mesmo tempo, prevenir rupturas é fundamental. Uma gestão mais precisa reduz custos financeiros e perdas”, informa Piellusch.
Estratégia de preços: Avaliar que os repasses não precisam ser lineares é necessário. O professor da FIA afirma que ajustes seletivos, combinados com promoções e estratégias comerciais podem proteger a margem sem perder a competitividade.
Revisão de portfólio: De acordo com Kanter, da FGV, esse é um movimento sofisticado, que muitas vezes é negligenciado: “Focar em produtos com maior margem, reduzir itens pouco rentáveis e ajustar o mix pode gerar impacto significativo”, acredita. Ela acrescenta que é preciso evoluir na estratégia comercial – aumentar o tíquete médio, estimular vendas complementares e melhorar a eficiência da base de clientes. “Isso ajusta a diluir custos fixos e logísticos”.
Momentos turbulentos como o provocado pelo conflito com o Irã costumam ser períodos de ganho de eficiência. “Empresas que revisam processos, adotam tecnologia e melhoram a gestão saem mais preparadas para ciclos futuros”, diz Marcos Piellusch.
Para Roberto Kanter, “momentos de crise funcionam como um teste de consistência da gestão. Organizações mais estruturadas conseguem transformar aumento de custo em vantagem competitiva, porque operam com maior controle e disciplina. A principal lição dentro do cenário de crise é clara: custo elevado exige gestão mais inteligente e não apenas cortes. Crises passam, estruturas permanecem”, diz.